Falsos amigos x Falsos cognatos

06 abr 2023 | Estrangeirismo, Gramática, Norma culta | 0 comments

Sabia que “falsos amigos” não são a mesma coisa que “falsos cognatos”? Muitos tratam desses dois termos como se fossem sinônimos, mas, no âmbito da Linguística, eles são conceitos distintos.

Se estiver curioso e quiser saber a diferença, veio ao lugar certo. Aprenderemos a diferenciá-los neste artigo.

Cognato

Cognatos: palavras que se parecem porque têm a mesma raiz (nasceram juntas)

A palavra “cognato” vem do latim “cognatus”. Ela é formada de duas partes:

  • co-
  • gnatus

Já conhecemos a partícula “co-”, versão abreviada de “com”, muito utilizada para combinar duas palavras em uma. É caso de “cooperar” (operar conjuntamente), “coordenar” (ordenar conjuntamente) e “coabitar” (habitar conjuntamente).

Já “gnatus” torna-se mais acessível se entendermos que o “g” inicial (que um dia foi pronunciado) terminou por ficar silente. Quando passou a não mais ser pronunciado, caiu. A palavra virou “natus”, que, consoante a fórmula que já conhecemos, depois virou “nato” em português.

O “nato” português, assim como o “gnatus” latino, são os particípios, respectivamente, dos verbos “nascer” (português) e “nascere” (latim). Ou seja, “nato” significa “nascido”. Palavras cognatas (co-natas), portanto, são, literalmente, aquelas “nascidas juntas”, ou de “nascimento conjunto”. Quer dizer, nascidas do mesmo lugar, da mesma fonte: possuem a mesma origem. Por exemplo:

  1. A palavra “tarde” em português e a palavra “tarde” em espanhol são cognatas, porque vêm, ambas, da mesma raiz: o advérbio latino “tarde”.
  2. As palavras “laranja” (português) e “naranja” (espanhol) já não são homógrafas (escritas exatamente da mesma forma), mas continuam sendo cognatas. Ambas vêm do árabe ibérico “نَارَنْج‎” (naaranj) — lembrando que “naaranj” não foi invenção do árabe da península ibérica. Este a havia tomado, por empréstimo, do persa “نارنگ‎” (nárang), que, por sua vez, baseou-se no sânscrito “नारङ्ग” (transcreve-se “nāraṅga”, mas pronuncia-se, mais ou menos, como “na arunga”).

    Vemos, portanto, que as palavras não precisam necessariamente ser escritas exatamente da mesma forma para que sejam classificadas como cognatas. Basta que provenham, ambas, da mesma origem. Por isso, o espanhol “llamar” e o português “chamar” são cognatos, pois o “cl-” inicial latino (“clamare”) veio para o português como “ch” e foi para o espanhol como “ll”. A mesma coisa aconteceu com algumas palavras de “pl-” inicial latino: pluvia (latim) transformou-se em “chuva” (pt) e “lluvia” (esp). Claro que ainda mantemos as combinações originais de nossa língua mãe: temos ainda tanto “clamar” quanto o adjetivo “pluvial” (água da chuva).

    Falsos cognatos

    Falsos cognatos: as palavras se parecem, mas têm raízes diferentes

    Agora que entendemos os cognatos, fica mais fácil entender os falsos cognatos.

    Falsos cognatos são palavras que parecem ser cognatas (co-natas = nascidas da mesma raiz), mas têm raízes diferentes.

    Ou seja, como essas palavras são escritas e/ou pronunciadas de forma muito parecida (e possuem o mesmo significado!), passam a impressão que são cognatas. Essa impressão, porém, é falsa: na verdade, são palavras com origens diferentes. Portanto, são “cognatos falsos”. Puxando a sardinha para o grego, poderíamos dizer que são pseudocognatos.

    Por exemplo, a palavra inglês “much” (“muito”) se parece bastante com o espanhol “mucho” (“muito”) — na escrita, na pronúncia e até no significado. Seria fácil pressupor que viessem da mesma raiz, mas os termos desenvolveram-se de forma totalmente independente: o vocábulo em espanhol (assim como o português “muito”) veio (vieram) do latim “multus” (“abundante, numeroso”), por sua vez um desenvolvimento da raiz proto-indo-europeia “*ml̥tos” (algo como “esfarelado”). Ao passo que o inglês “much” veio diretamente do inglês antigo “myċel”, que veio da raiz proto-indo-europeia “*meǵa-” (“grande”).

    O proto-indo-europeu (PIE, também chamado simplesmente de indo-europeu, ou IE) é uma grande família linguística que abarca várias outras subfamílias. Só para ilustrar, podemos pensar assim: se a língua-mãe do português é o latim, então a língua-mãe do latim é o indo-europeu (falamos dele neste artigo). O importante aqui é perceber que “much” e “mucho” se parecem em escrita, pronúncia e significado, mas vêm de raízes completamente diferentes. São, portanto, falsos cognatos (ou seja, ❌não são co-natos, não nascem da mesma raiz).

    Outro exemplo: ambos o latim “habere” e o alemão “haben” significam “haver”. Como têm significado, escrita e pronúncia semelhantes, passam a (falsa) impressão de serem cognatos. Porém, o vocábulo latino veio do indo-europeu “*gʰabʰ-” (“dar, receber”), cuja raiz culminou no “geben” (“dar”) alemão; ao passo que o vocábulo alemão veio do indo-europeu “*kap-” (“agarrar”), que se desenvolveu no latim “capere” (“tomar, capturar”). Organizando:

    Raiz (I.E.)

    Latim

    Alemão

    Português

    *gʰabʰ-
    *kap-
    habere
    (haver)
    capere
    (capturar; agarrar)
    geben
    (dar)
    haben
    (haver)
    haver
    caber

    Ou seja, “habere” e “haben” significam o mesmo, mas vêm de raízes distintas. Como se parecem, mas têm origens diferentes, são falsos cognatos.

    O mesmo acontece com “outro” em português e “other” em inglês: são escritos de forma semelhante e possuem o mesmo significado. Parece que vêm da mesma raiz, mas “outro” vem do latim “alter”, enquanto “other” vem do proto-germânico “*anthera-”. Suas raízes indo-europeias também são diferentes.

    Portanto, falsos cognatos são palavras semelhantes em forma e significado, mas com origens linguísticas diferentes. Ou seja, embora se pareçam, são palavras que ❌não nasceram da mesma fonte — não são co(g)natas.

    Falsos amigos

    Falsos amigos: palavras que se parecem, mas significam coisas diferentes

    Vimos que os cognatos vêm da mesma raiz; e que os falsos cognatos se parecem na forma e no significado, mas não vêm da mesma raiz.

    Agora, veremos que há palavras que se parecem muito, mas que não têm o mesmo significado. De fato, sua semelhança pode até ser consequência de virem da mesma raiz (o oposto dos falsos cognatos, que nunca têm a mesma raiz), mas, em último caso, a origem dessas palavras é irrelevante. Quer venham ou não da mesma raiz, o que categoriza os falsos amigos é que são ✅palavras semelhantes com ❌significados diferentes (ao contrário dos falsos cognatos, que têm significado igual).

    É o caso do inglês “actual”, que se parece muito com nosso “atual”, mas significa “verdadeiro”:

    He’s an actual friend.

    Ele é um amigo de verdade.

    É possível tirar a prova real partindo do português, pois aqui também utilizaríamos outra palavra para dizer “atual” em inglês:

    No mundo atual, há preocupações com o avanço tecnológico.

    In today’s world, there are concerns about technological advancement.

    Tanto “atual” quanto “actual” provêm do latim tardio “actualis” (“ativo, aquilo em que há ação”), forma adjetiva de “actus” (“ato, o fazer algo”). Ou seja, ao contrário dos falsos cognatos (palavras de mesmo significado com origens diferentes), temos aqui dois falsos amigos (palavras com significados diferentes e origens iguais).

    Mas vale lembrar que a origem é irrelevante. Só para ilustrar, aqui vai um breve relato pessoal: quando fui ao Vietnã, tentei aprender vietnamita. Uma das palavras que via frequentemente no país era “lựa”, que se parece muito com nosso “lua”, inclusive na pronúncia. Porém, significam coisas diferentes, pois o vietnamita “lựa” quer dizer “escolha, seleção”. Nem é preciso dizer que têm raízes (origens) completamente distintas do português “lua” (diferentemente do exemplo com “atual” e “actual”, do parágrafo anterior, em que ambas as palavras provêm da mesma raiz latina).

    O mesmo vale para “pain”, que em inglês significa “dor”, mas em francês significa “pão”; “burro” tem o mesmo significado em português e espanhol, mas quer dizer “manteiga” em italiano; em japonês, “sacana” significa “peixe”, e “carai” significa “picante, ardente”; em tagalog, “puto” é um bolinho de arroz doce, e “luto” significa “cozinhar”. Todas essas são palavras que não compartilham da mesma etimologia, sendo provenientes de origens diferentes (novamente: ao contrário do que acontece com “atual” e “actual”). Ou seja, os falsos amigos podem ter ou não a mesma origem linguística — o que importa é que as palavras se pareçam, mas signifiquem coisas diferentes.

    Entre inglês e português, há um sem número de falsos amigos. Por exemplo, “comprehensive” se parece com “compreensivo”, mas significa “abrangente”:

    This is a very comprehensive post.

    Este artigo é muito abrangente.

     

    Já “compreensivo” seria “understanding”:

    Você é muito compreensivo.

    You are very understanding.

     

    Como já explicamos no artigo sobre “reportar”, o inglês “report” não significa “reportagem”, mas “relatório”; e o verbo “to report” não significa “reportar”, mas “relatar, informar, comunicar”:

    Please submit your report by EoD.

    Favor enviar o relatório até o fim do expediente.

    Please report your findings ASAP.

    Favor relatar suas conclusões o mais rápido possível.

    Na área de Direito, o rei das falsas amizades é o termo inglês “jurisdiction“, constantemente traduzido ao português como “jurisdição”. Da próxima vez em que assistir a um filme ou seriado, observe. Quando há um conflito entre forças policiais (por exemplo, entre a polícia municipal e o FBI, que é o correspondente de nossa Polícia Federal), o sujeito dirá: “you’re out of your jurisdiction“. Que o tradutor inexoravelmente colocará para você: “você está fora de sua jurisdição”.

    Em inglês, há um provérbio sobre as únicas certezas da vida: “death and taxes” (certo mesmo, só a morte e os impostos). Com base nele, costumo brincar, introduzindo uma terceira variável ao adágio: “death, taxes, and jurisdiction” (únicas certezas da vida: a morte, os impostos e a tradução equivocada de “jurisdiction” como “jurisdição”).

    Joe Black (Brad Pitt) e William Parrish (Anthony Hopkins)
    em Meet Joe Black: “death & taxes”.

    Embora “jurisdiction” e “jurisdição” venham, ambas, do latim (diretamente, no caso do português; no inglês, por intermédio do francês), significam coisas diferentes. O correspondente do “jurisdiction” inglês é o instituto da competência no Direito brasileiro. Como todo jargão, o termo é um pouco diferente do significado leigo, e significa “o poder de exercer a autoridade no caso concreto”. No filme, quando o agente do FBI diz ao policial municipal “you’re out of your jurisdiction“, o que ele está dizendo, na verdade, é: “você não tem a competência (em Direito: o poder, a autoridade) necessária para atuar nesse caso.” Em português, a “jurisdição” é o poder do juiz de “dizer o direito” (do latim juris + dictio), um instituto bem diferente. Policial não tem jurisdição, quem tem é o juiz.

    Da mesma forma, quando dizemos, aqui no Brasil, que precisamos ir à academia malhar, o falante de inglês não entenderia nada se traduzíssemos a palavra como “academy”. Em inglês, “academy” refere-se ao ambiente escolar/universitário ou a um instituto de artes ou ciência (como a Academia do Oscar). O local de atividades de musculação seria o “gym”, vocábulo oriundo do grego “γυμνάσιον” (“ginásio”), local onde se praticava a atividade física na Grécia Antiga.

    Igualmente, “exit” em inglês não significa “êxito”, mas “saída”; em francês e italiano, “subir” significa “sofrer”; “nombre” em espanhol significa “nome”, enquanto em francês significa “número”; “guardare” em italiano não significa “guardar”, mas “olhar, prestar atenção a”; “escoba” em espanhol não significa “escova”, mas “vassoura”; “prendere” em italiano não significa “prender”, mas “pegar, tomar”:

    Prendi la strada a sinistra.

    Pegue a estrada à esquerda.

    Parents” em inglês não significa “parentes”, mas “pais” (tanto o pai quanto a mãe, os genitores); “embarazada” em espanhol não quer dizer “envergonhada”, mas sim, “grávida”; “demand” em inglês significa “demanda” ou “demandar”, mas “demander” em francês significa “pedir”; “gift” significa “presente” em inglês, mas “veneno” em alemão. São sempre palavras que se parecem, mas cujo significado é diferente.

    Na prática

    Para concluir, os falsos cognatos significam coisas iguais, mas têm origem etimológica diferente.

    Já os falsos amigos significam coisas diferentes, embora se pareçam na forma.

    Veja a tabela abaixo:

    Falsos Amigos

    falsos cognatos

    Etimologia

    Significado

    FORMA

    (pronúncia, escrita)

    🤷🏻‍♂️ Irrelevante

    Diferente

    Semelhante

    Diferente

    Semelhante

    Semelhante

    Há uma infinidade de casos envolvendo falsos cognatos e falsos amigos — não só entre português e inglês, mas nas línguas em geral. Infelizmente, essa realidade reflete-se na imensa quantidade de traduções de baixa qualidade no mercado — em que muitas das ocorrências envolvendo falsos amigos são vertidas equivocadamente ao português.

    Foi justamente desse tipo de equívoco que nasceram muitos dos termos e expressões atualmente utilizados, que melhor seriam evitados ou substituídos por equivalentes portugueses. Por exemplo, a troca da conjunção “nem” por “ou”; o uso errado do verbo “reportar”; o uso incorreto de “entregar”, por tradução direta do inglês “deliver”; a utilização da expressão “pensar fora da caixa”; o gerundismo; dentre muitos outros exemplos.

    Por isso, fique de olho nos falsos amigos que erroneamente vieram para o português. Conhecê-los (e evitá-los) pode fazer uma grande diferença na hora de falar com o cliente, escrever aquele texto científico e/ou até repassar informações em geral. Afinal, quando uma das partes do diálogo não entende a outra, a comunicação se perde.

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